Viagem de Ônibus
O tempo em Buenos Aires chega ao fim, deixando uma ótima impressão depois de acolher tão intensamente a galera.
No ônibus não consegui dormir, ao contrário da Manu, que dormiu assim que sentou do meu lado, e fiquei pensando. Ainda a caminho do TMDG em si, vi como foi importante o período anterior ao evento em si. Foi ali que conheci mais gente, que fiz mais contatos com excelentes designers, ilustradores, animadores, fotógrafos e boêmios. Se o congresso é uma oportunidade de trocar experiências e aprender com quem atua no ramo, com vivências diversas das suas, uma das melhores formas de interagir talvez seja conhecê-los não como profissionais, mas como pessoas, porque neste campo a produção sempre tem muito a ver com quem faz, com o que ela gosta de ouvir, com os assuntos que costuma abordar, com as brincadeiras que faz… a personalidade de cada um já indica muito de seu trabalho e lhe permite entender melhor suas experiências e seus baratos, mesmo em meio a exigências do mercado e dos clientes controladores.
Talvez seja neste nível pessoal que aconteça a maior troca e a melhor oportunidade de crescimento enquanto designer. Obviamente o evento prometia trazer muitas novidades, muitas tendências e idéias novas, mas sem perceber como aquilo tudo se refletiria naquelas pessoas a experiência provavelmente não seria tão construtiva. Conhecendo melhor meus colegas, suas reações seriam mais palatáveis e a troca de idéias e impressões seria muito natural.
Mar del Plata
Chegamos pela manhã. Névoa e frio nos aguardavam com uma cidade fantasma. Ruas vazias, carros velhos estacionados desde a Guerra das Malvinas, idosos caminhando encasacados, um Sol que não aquecia. Mar del Plata fora do verão é uma grandiosa obra esquecida à maresia. Prédios grandiosos semiabandonados, cassinos desativados, um carrossel de cavalinhos e xícaras inertes no parquinho da pracinha esquecida entre a praia e a avenida vazia. Na praia, leões marinhos.

Mar del Plata no Inverno
Não podia ser melhor para o TMDG, pois nada tirou a atenção do evento em si, além das festas do próprio congresso e as farras nos apartamentos do hotel.
Os quartos
Os quartos eram divididos por até 5 pessoas que poderiam ser até desconhecidos.
Logo no primeiro dia, enquanto pensava nas surpresas que o evento guardava, alguém tocou a campainha. Olhei pelo olho mágico e pensei: ou este é o Dufa ou a máfia platense andou recrutando bem. Era o Dufa, imenso, dois metros e trinta de altura, forte como um touro, ótimo desenhista e artista 3d, bom bebedor e apreciador de uma boa jogatina nerd. Um amigo de longa data que acabara de conhecer. Cursa o fim do curso de Desenho Industrial na Univercidade, onde eu apenas começara.
Abri mais tarde também a porta para a Carol. Ligadona, do rock, de cara vi que estava ali na Argentina para aprontar muito. Não vi nenhum trabalho dela nem troquei idéia a respeito disto, mas ela sabe apreciar um bom som. Comentou que gostava de Ska mais tarde e conquistou de vez minha simpatia.
Depois da Carol, conheci a Mari e o Alexandre. Desta vez, eles que abriram a porta para mim. Mari, tranquilona e maneira, foi logo me dando uns stickers fodas com silhuetas de camelos e outros exaltando narguilés, para eu colar no meu caderno de desenhos. Depois mandou uns traços maneiros no caderno do Dufa, cheios de degradês e bom trabalho com o grafite. Já o Alexandre trabalha com design interno de móveis para navios, mostrou até fotos de navio dando cavalo de pau. Lesk de primeira, mostrou-se bom companheiro de boemia e desbravador herbalista dos arredores do evento.
A Manu pouco vi no quarto. Não sei se foi porque no primeiro dia em que amanhecemos lá dei-lhe um chute na costela quando foi me acordar ou se foi porque ela estava fazendo algo que sabe fazer muito bem: travar contatos e conectar as pessoas umas às outras. Vivo dizendo isso, a Manu é dessas pessoas que estão sempre por dentro, sempre conhecem as pessoas legais, sempre em contato com o que há de mais cool e em voga. A Manu é pop.
Pictoplasma
Antes do TMDG em si começar, o teatro de um imenso bingo desativado sediou o Pictoplasma.
Pictoplasma é uma conferência anual que virou um ponto de encontro da crescente cena internacional de artistas, animadores, criadores de personagens e produtores. Enquanto no lobby acontecia uma interessante exposição de tipografia latinoamericana, no auditório víamos painéis com dezenas de curtas de animação em diversas técnicas, intercalados com apresentações de artistas selecionados para o evento.
Em ordem, se apresentaram a argentina Juliana Pedemonte, a dupla francesa Gangpol & Mit, o cidadão do mundo Motomichi “Japones Hasta la Madre” Nakamura, o francês Shoboshobo e finalmente o Studio Aka com o inglês Marc Craste.
Juliana Pedemonte (aka Colorblok)
Juliana Pedemonte falou bastante sobre a criação de personagens e como eles povoam seu dia-a-dia. Fotos tiradas de seu quotidiano mostraram que há personagens divertidos em chaveiros, em volta de sua cama, por todo o quarto, em embalagens de cereais, pendurados no retrovisor do carro, por todo seu estúdio, em volta dos computadores… a moça passa todo seu tempo imersa em criaturas bem humoradas, que podem ser vistas em seus trabalhos de ilustração e motion para a Nichelodeon, MTV, VH1 e outros.

Toy por Colorblok Inc.
Juliana ressaltou a importância do uso de formas simples em seus trabalhos como maneira de simplificar os personagens e torná-los mais simpáticos. Falou sobre uma característica comum em seus desenhos, que é o rosto bem demarcado, destacado do corpo, que segundo ela, ajuda a manter as expressões das criaturas bem visíveis e marcantes dando maior liberdade ao resto tanto em formato quanto em cores, sempre alegres e voltadas ao good feeling.
Gangpol & Mit
Depois dela entraram os dois franceses Gangpol e Mit. Um faz desenhos animados com personagens criados a partir de formas básicas e simples como triângulos, círculos e trapézios, sem muita elaboração, deixando o trabalho bem tosquinho, enquanto o outro cria as trilhas sonoras, também bem básicas e infectadas, para os curtas. Usam sempre cores fortes e temas alegres em suas composições e salpicam tudo com muita violência ou com um tom nervoso o tempo inteiro, deixando tudo bem vidradão com dentes travados de farinha. Um pouco divertido, um pouco agoniante, bastante tosco.
Uma animação em particular me deu gosto de ver. Acho que acertaram a mão nesse “Chinese Slavery”, ao contrário das demais. O mesmo vale para as ilustrações; a maioria bem feia e primária, mas uma ou outra se salvavam bem.
Motomichi – Japones hasta la madre!
Motomichi é japonês; ou melhor, japonês é a mãe. Tem uma grande produção em imagens apenas em vermelho, preto e branco, buscando monstros e personagens que inventa ou pesquisa em culturas do mundo. Faz um ótimo e muito particular trabalho de ilustração e belas animações de ritmo impressionante, além de realizar projeções ao vivo em eventos. Com o sucesso de seu trabalho, foi conseguindo mais espaço como VJ e lançou sua linha de toy art, baseada nos personagens que desenhava. Eu já conhecia seu trabalho de um clip da banda Knife, mas fiquei muito impressionado com todo o resto que conheci no Pictoplasma.
Motomichi não gosta de ser chamado de japonês e faz camisas e projeções com os dizeres JAPONES HASTA LA MADRE. Pode parecer bobagem, mas seu trabalho me pareceu visceral o suficiente para que esta posição de não se definir etnicamente seja bem respeitada e levada a sério.
Shoboshobo
Shoboshobo é a assinatura de um francês absurdamente prolixo e caótico em sua produção. É um sujeito com milhões de projetos de arte e festa que caminham em paralelo e que agregam muita gente em volta do artista. Seus milhares de desenhos são absurdamente despretensiosos como aqueles rabiscos que fazemos em beira de caderno; qualquer rabisco é aproveitado. Suas bandas são erráticas, ele e seus amigos tocam as músicas de capacetes ou fantasiados e fazem barulhos estranhos que são reproduzidos em uníssono. Suas instalações são absolutamente doidas, como a “Motor Karaoke” em que o espectador dita a velocidade do video que vê – uma filmagem de motos de corrida nas visões dos pilotos – de acordo com seus próprios berros, que são gravados e guardados em uma biblioteca de gritos que o cara acha que podem servir pra alguma coisa no futuro.

Regala por Shoboshobo
Conforme sua rede de amigos e entusiastas foi crescendo, Shoboshobo foi fazendo camisas com seus desenhos para vender, bem como criando reproduções e coleções em livros, máscaras e pintando paredes de lojas e restaurantes de gente que passou a gostar de seu trabalho.
Com as festas e a grana das vendas, juntou mais alguns amigos e partiu em jornada para o Japão para fazer experimentações. Alugou um ônibus, pintou ele todo com seus desenhos insanos e saiu pelas cidades fazendo exibições, shows e projeções em beira de estrada, perto de colégios, em praças…
Enquanto viajava, gravava sons de locais públicos: feira de peixes, o centro da cidade ou qualquer lugar que julgava interessante, reproduzindo depois em seus shows os burburinhos, gritos, barulhos e zunidos do quotidiano do Japão.
A qualidade do trabalho de Shoboshobo é sempre duvidosa. Seus desenhos não trazem nenhuma beleza estétiva, não têm riqueza de traço nem contribuição material enquanto arte. Suas músicas não passam de barulho. Suas instalações artísticas são somente pura loucura. A platéia permaneceu em silêncio constrangedor após a exibição de certas obras.
Porém, o que me faz admirar Shoboshobo é sua autenticidade. Ele faz o que gosta e deixa isso bem claro, com uma empolgação irrefreável que contagia a todos a ponto de comprarem suas idéias loucas porque transmitem, todas, este entusiasmo tão legítimo. O cara não é um artista genial, ele é apenas um artista gente boa que não tem vergonha do que faz independente do que pensem sobre suas doideiras e leva pra frente sua produção simplesmente porque foi isso que ele escolheu fazer para viver e se divertir.

Sem título por Shoboshobo
Definitivamente, o mundo precisa de mais loucos assim. Felizmente, este dá aulas de multimídia e desenho gráfico na Ecole Estienne de Paris e realiza diveros workshops, inclusive para crianças.
Studio Aka/ Marc Craste
Marc Craste é o diretor do Studio Aka de animação, em Londres. Ao contrário do Shoboshobo, a produção do estúdio é muito metódica, profissional e séria. Realiza campanhas para diversos clientes sizudos e de peso como Lloyds Bank, Compaq e para a Loteria Nacional, mas sem perder a sensibilidade e a fluidez nas animações. Fruto de muito suor, boa direção e boa coordenação entre os envolvidos, os trabalhos do Aka são emocionantes e trazem sempre mensagens singelas que mudam a vida do espectador, pelo menos naquele instante – ou ao menos divertem. Mesmo quando o tema é mais sombrio ou delicado, o senso de humor e a busca pela mensagem edificante nunca cessam.
Seu portfolio é impressionante. A qualidade das produções é patente tanto no baixo quanto no alto orçamento; da vinheta pra MTV até curtas mais elaborados podemos notar que o estúdio prima pela qualidade do que leva a público e todas as suas peças são absolutamente irretocáveis, o que levou o Aka a vários prêmios e a uma nomeação para Oscar com o curta Varmints.
Na palestra Marc Craste falou muito de como é o processo criativo do estúdio, muito organizado e estimulante para todos os envovlidos nos projetos, mas também mostrou que, apesar de possuir a produção mais impessoal e fria de todos os expositores do evento, dado o vulto dos trabalhos, cada animação é feita com muito empenho, amor e dedicação, deixando bem claro que é imprescindível tratar qualquer peça, independente de seu tamanho e projeção, com muita atenção e sensibilidade em relação ao briefing e à comunicação com o cliente.
As vinhetas
Várias vinhetas foram apresentadas entre as palestras. Consegui achar alguns deles no youtube.
(Clip da dupla de break beat Hifana)
(City of Good, da Shilo.tv)
(por George Gendi)












