TMDG.2008 [001]
A viagem
Neste mês de outubro estive na Argentina para o Trimarchi, o maior evento de design da América Latina. O congresso ocorreu em Mar del Plata , uma cidade costeira perto de Buenos Aires, onde passei alguns dias antes de ir pro litoral.
Para não embolar o meio de campo mais do que o confortável, vou separar cronologicamente os episódios e personagens, misturando sempre os temas que têm a ver com design e os que não têm tanto assim, mas que são sempre bem-vindos.
Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2008
Acordei cedo. Acordar cedo para mim é algo complicado, vejo tudo muito embaçado um tempo, não tenho muita noção do que fazer, fico sempre uns minutos zanzando que nem barata tonta até lembrar, ah sim… as malas, o taxi, os recados… no final das contas esqueci escova de dentes, desodorante, colônia, barbeador, recarregador de celular, bando de coisa inútil, afinal meus ancestrais não usavam nada disso e aqui estou eu.
No avião para Buenos Aires senta na cadeira à minha frente uma menina que sem dúvida ia para o TMDG. Era novinha e usava canetas coloridas de menininha para escrever ou desenhar no seu sketchbook, uma verdadeira moda entre designers, ilustradores, animadores e congêneres.
Sketchbooks
Cabe aqui uma nota sobre sketchbooks. Acho que a galera do design e da ilustração sempre teve sketchbook e sempre precisou tomar notas e fazer uns desenhos descompromissados. Mas de um tempo pra cá – ou pelo menos desde quando comecei a reparar nisso – o sketchbook virou moda e ganhou uma importância que de certa forma vai contra a idéia de um simples livro de rascunho.
Aqui alguns exemplos:
Os sketchbooks são tão bem feitos, tão bem cuidados, que estão mais para arte-final do que para sketchbook mesmo. Talvez o correto fosse chamar de diário gráfico ou algo assim, porque há claramente um empenho em tornar o cadeno todo em uma obra em si.
Alguns desses são feitos em Moleskines, cadernos caríssimos usados há muitos anos por artistas de renome, como Vincent Van Gogh e Pablo Picasso, e que voltaram a ser confeccionado e vendidos em 1998. Outros são feitos à mão com muito cuidado e com muito material interessante, enchendo de culpa o traço de quem vai rabiscar: não dá pra sair desenhando à toa, o lance tem que ser mais refinado.
Milhares de workshops foram desenvolvidos para ensinar a montar um sketchbook desses. Com papéis especiais, mil colagens bem –feitas, ilustrações bem cuidadas… tem de tudo no sketchbook dessas pessoas, menos rabiscos crus, esboços tortos e idéias que não vingaram…
Um dos mais famosos é o do Renato Alarcão, através do Estúdio Marimbondo, chamado “Diário Gráfico – Oficina de Desbloqueio Criativo”, que ainda tenho vontade de fazer.
Me sinto até envergonhado quando cruzo com essa galera que não só confecciona seu próprio sketchbook como também faz dele uma obra em si.
O meu é todo rabiscado, todo interminado, milhares de rabiscos às vezes sem propósito ou relação entre si e alguns esboços de coisas que só vingaram fora do caderno. Penso se eu sou mesmo retardado ou se as pessoas que estão escondendo seus esboços e chamando as obras acabadas de sketches.
De volta ao avião
Enquanto a garota firulava em seu sketchbook, fiquei ouvindo música e prestando atenção nas argentinas presentes no vôo. Muito bonitas, exageradamente maquiadas e retribuem quando são olhadas.
Buenos Aires de cima: uma cidade planejada, com quarteirões certinhos à lá Sim City e zonas muito bem delimitadas. Parece que a boa era tomar um ônibus do Manuel Tienda León para se aproximar do centro da cidade e de lá esticar até o destino no taxi da companhia, bem mais barato. No caminho notei que no subúrbio não há muitos anúncios em outdoors nem nas ruas menores. O comércio é todo pequeno e não parece que a classe baixa é considerada um importante segmento da população consumidora. Talvez seja a recessão ou o momento econômico do país, mas a poluição visual em termos de propaganda é bem menor e mais ponderada que no Brasil. Melhor pra eles.
Os parques são muito bem conservados , assim como os prédios antigos pelos quais passei até chegar ao centro da cidade, mais precisamente ao Obelisco Hostel, na rua Corrientes, quase esquina com Esmeralda.
No próximo post, o albergue…



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